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domingo, 5 de dezembro de 2010

ONDE OS SONHOS NASCEM

Autor: Carlos Augusto Machado

Uma questão que se apresenta, após a ocupação do morro pelas tropas militares, é a sua manutenção, custos, eficiência, resultados, prós e contras. A decantada inspiração poética e cultural em obras como no longa precursor do cinema novo “Rio 40 graus” de Nélson Pereira dos Santos e peças musicais como “A voz do morro” interpretada por Zé Keti, apesar de não ter a pretensão, reverberam como um legado sem solução.

Em nossa memória, entretanto, são retratos de uma realidade sem tapete vermelho, sem glamour, sem estatuetas.  O ídolo de uma criança tombou e agora ela está órfã. A saudade de um ente querido perdido. Uma casa abandonada, às pressas, devido a ameaças, chacinas, torturas e extermínios. São muitas cenas reais encaminhadas por quilômetros de fibras óticas e links de satélites mundo afora. A metáfora vem à tona, e como uma cereja num bolo  vejo o tiro de fuzil transfixando a camisa branca e o peito de um inocente nesta guerra urbana.

Esperamos que os holofotes, a cobertura sob todos os ângulos,  com a mais alta tecnologia, tanto da imprensa quanto dos militares não seja passageira. Eis que emergem heróis de uma população esquecida. E que a mega-operação  desarme também espíritos envolvendo toda a sociedade. Impérios como o de Alexandre caracterizavam-se na ocupação de territórios pelo respeito às culturas diversas e assim levou tão longe, as diretrizes de Aristóteles.  Faz-se mister mobilizar todos os atores em todos os níveis.  Com ênfase na democracia e legalidade  constitucional como diria o Marechal Henrique Lott, ministro de guerra de JK.
  
Que impere o bem sobre o mal. Nossas eternas antíteses. Que a droga sucumba à repressão. E suas vítimas sejam recuperadas. Para o vício do “crack”  que a primeira  dose seja evitada. Evidente que o passo importante para impedir o  acesso  já foi dado.

Sabemos que está em andamento um “pacotão” de benefícios. São obras como o teleférico, já adotado na Colômbia, devendo-se contemplar além da segurança e transporte, o urbanismo, com vias de acesso dignas, postos de  saúde, ensino profissionalizante,  postos de trabalho. “Arte, diversão, ballet ...”  com liberdade acrescentaria esporte, cinema, rap, capoeira, samba, etc ...

Poderíamos mencionar que a ocupação dos morros cariocas outrora foi uma forma de exclusão, encaminhando todos aqueles que estavam doentes e pobres às encostas.  Serviços básicos eram  benesses restritos à  aristocracia rural e depois urbana. E assim caminhou a humanidade por décadas a fio. E agora colhemos  o que semeamos.

Jamais diria tratar-se de uma política paternalista, seria indiferença ou egoísmo dos mais afortunados. E sim uma intervenção social, tardia, porém essencial, se implementada na forma de um mutirão, espero  que esta palavra não soe muito comunista para alguns reacionários a avanços.   

A inserção dos municípios e seus executores, sua “manu militare” sofre censura e já é tardia. Como seres sociáveis por natureza, devemos interagir preventivamente, realizar o policiamento preventivo. Que não seja requinte de primeiro mundo ao não se cumprir o Estatuto  do Desarmamento impedindo a Guarda do Rio em portar arma de fogo. Ou há extrema confiabilidade na erradicação da violência e do crime imediatamente, ou são adeptos da obsolescência do uso do velho Smith & Wesson ou simples interesses inconfessáveis, quiçá românticos, da época em que se amarrava cachorro com morcela. Porém se houve uma consulta popular, é categórica a vontade expressa e esperamos que estejam no rumo correto, e não seja mais um devaneio da classe média ou lamentável lobby conspiratório.

Salientando haver um custo muito alto, conforme dados já conjeturados na mídia. Por que não se cogitar o emprego a médio e longo prazo da Guarda Municipal. Assim dividiríamos as competências ensejando resultados em que os índices de  eficiência, efetividade,  continuidade nestes parâmetros temporais seriam mais profícuos. Obviamente se ausentes paixões impregnadas de vaidades e vontades unilaterais.
  
Afinal, questiono o que é mais dispendioso, o deslocamento de grandes efetivos distantes e que não conhecem a área em tela, ou a distribuição em pequenos núcleos de contingentes que muitas vezes fixam suas moradias nestas localidades. Vemos exemplos nos EUA e suas polícias locais. Em muitas cidades da Itália constatamos um retorno à valorização dos costumes e instituições locais. Implícita está a preponderância do aspecto econômico e o uso do dinheiro público racional.
  
O que ocorre é uma evidente  manipulação do tema segurança. Voltando-se a soluções e intervenções de efeito e resultados rápidos. Polarizando-se e dogmatizando-se o conhecimento, a consultoria, o comando. Nesta linha  valorizado o emprego de grandes estruturas, que sem o critério de respeito ao cidadão, vê sua inserção efetiva na comunidade comprometida. Elegemos muitas vezes o corporativismo como um mal necessário, ceifamos soluções viáveis mas que ferem interesses, expressos distorcidamente e sem embasamento, estes evocam o distanciamento ao invés da aproximação e compartilhamento de idéias e modelos. Tendência que não prosperará mais adiante em nossa história recente muito mais afeita as dissensões, e hegemonias  do que ao consenso e igualdade.

Sem a adoção, desde a formação dos aplicadores da lei em suas instituições, de conceitos  incutindo-lhes a encararem o outro não como um adversário e inimigo e sim como um parceiro estarão fadadas as divergências e ao insucesso no futuro. Teremos talvez o efeito do eterno retorno.

Sabemos que missão de paz é diferente de uma invasão, refiro-me ao Haiti, porém mesmo na pacificação há confrontos, baixas, e efeitos psicológicos irreversíveis. Quanto as  falácias paliativas divulgadas reiteradamente pela imprensa, elas apenas têm o condão de amenizar e não superar o problema. É interessante, mas não propícia emprego e comida na mesa. Discursos impregnados de emotividade, mas destituídos de senso crítico.

Seja o morador, o agente da comunidade, o comerciante, o profissional da educação, da saúde, o agente de trânsito, todos os profissionais da segurança pública devem estar compenetrados e articulados.
  
Portanto, os sonhos nascem no lugar em  que você nasce ou que escolheu para ser seu lar ou de sua família, com segurança e dignidade e onde o Estado deveria  estar presente em todos os  níveis e em tempo integral. Creio que não resolverá tirar somente o morador da exclusão e sim tirar a exclusão de dentro do morador e de cada um de nós.

2 comentários:

  1. Alexandre Silvestre5 de dezembro de 2010 19:57

    Senhor Carlos,

    Acompanho este blog há alguns meses e fico impressionado com suas abordagens, elas são diferenciadas e de ótima qualidade.

    Parabéns

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  2. Carlos
    Seu artigo é extremamente consciente, e nos faz refletir sobre vários aspectos. Vale ressaltar definitivamente que as ações DE e PARA a segurança pública devem envolver toda a SOCIEDADE e em especial a COMUNIDADE.
    Parabéns pela sua abordagem inteligente, clara, objetiva e abrangente.
    Que Deus o abençoe sempre!!!

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